História

“Mesmo que a jornada tenha dez mil léguas, precisamos caminhar um passo de cada vez.”

– Miyamoto Musashi

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Eu sempre tive uma visão muito clara do que significa ser um grande guitarrista e um grande músico: ser capaz de tocar o que quiser, na velocidade e na dinâmica que quiser, quando bem entender. Ou seja, pra mim, ser um grande músico significa total liberdade e nenhuma distância entre o impulso criativo, a ideia musical e a execução no instrumento.

Tenho certeza que você concorda comigo quando digo que música é uma linguagem. Jamais conheci um músico que discordasse disso. O que eu mais curto nessa ideia é que ela nos permite relacionar com a música todo o conhecimento que temos sobre linguagem, e todos nós somos falantes fluentes do nosso idioma! Isso significa que, se olharmos para a maneira como usamos nossa linguagem, podemos ver tudo o que é necessário para alcançar essa mesma fluência na música! A gente pode dizer que é fluente numa língua quando não precisamos pensar na linguagem em si, em qual palavra vamos usar, quais são as regras gramaticais, como vamos usar a boca e a voz para transformar em sons o conteúdo que desejamos expressar, etc. Em vez disso, simplesmente pensamos nas ideias que queremos transmitir e as expressamos. A gente é fluente numa linguagem quando consegue usá-la sem pensar.

Atingir esse nível de liberdade e espontaneidade na linguagem da música sempre foi — e ainda é — o meu objetivo como guitarrista e músico. Mas o que isso significaria na prática musical? Significaria não ter de pensar em como eu vou executar a ideia musical que surge na minha cabeça, qual é a escala, qual é a melhor digitação, qual é a técnica mais apropriada para executar a frase, essas coisas… Em outras palavras: simplesmente ter um impulso criativo, uma ideia musical para expressar, e ser capaz de expressá-la, de maneira fidedigna e sem precisar pensar duas vezes.

Não preciso nem dizer que eu ainda não cheguei nesse ponto. É claro que não cheguei. Mas, ao longo de mais de dezesseis anos de muito estudo, eu fiz algum progresso. Além disso, hoje em dia estou praticando de maneira mais eficiente do que nunca. E foi pensando em compartilhar as coisas que venho descobrindo ao longo desse caminho que criei o Samurai Guitar.

Como quase todos os jovens guitarristas brasileiros, comecei meus estudos sem nenhum método, apenas juntando toda a informação que conseguia com os vídeos, revistas, sites e algumas aulas. Quando me via insatisfeito com meu desempenho, o que fazia era retornar às mesmas fontes para buscar mais conteúdo. Eu achava que o simples fato de acumular o máximo de informação possível por fim me levaria ao meu objetivo de total liberdade no instrumento. Mas não foi assim. Nenhum dos instrutores que pude encontrar no Brasil parecia compartilhar do meu objetivo, muito menos tinha um método para alcançá-lo.

Além disso, logo ficou claro para mim que todos eles trabalhavam de modo exatamente contrário à minha noção de espontaneidade e criatividade: eles ensinavam os mesmos exercícios e truques manjados, as mesmas escalas, os mesmos licks, etc. Uma verdadeira fábrica de frases prontas, para serem repetidas em escala industrial por hordas de guitarristas. Se música é uma linguagem, todos os alunos desses caras falam sempre as mesmas coisas, sempre da mesma forma, onde quer que estejam. Isso é o exato oposto de criatividade e espontaneidade. Eu sei que todas essas coisas até têm seu valor… mas eu também sei que apenas isso não é o suficiente pra gente chegar no ponto de total liberdade criativa no nosso instrumentoO problema não é que os caras ensinam isso… o problema é que eles ensinam isso!

Tudo isso mudou quando fui aceito no Guitar Craft, a “escola” do legendário guitarrista do King Crimson, Robert Fripp. Ele não apenas compartilhava da minha ideia do que era ser um grande musico e instrumentista: ele já havia atingido o objetivo! E a melhor parte é que ele havia desenvolvido uma espécie de caminho para que outros pudessem chegar lá também. Pela primeira vez, depois de muito tempo procurando no Brasil sem encontrar nada, eu estava tendo contato com alguém que tinha as respostas que eu buscava, em especial no quesito técnica. E o que aprendi com ele me surpreendeu muito no início.

A primeira coisa que aprendi com o Robert é que a única solução para esse problema era voltar e se aprofundar nos fundamentos. Recuar, em vez de avançar, e entender como tudo funciona no nível mais básico, mais fundamental. Essa abordagem, no começo, me pareceu um daqueles paradoxos Zen de que os hippies tanto gostam. É fácil imaginar o Mestre Yoda falando: “Para avançar é preciso recuar” (na real acho que o Yoda diria: “Recuar para avançar preciso é!”).

Mas depois de analisar um pouco, vi que, se música é de fato uma linguagem, esse método faz todo sentido. Por exemplo, nós, que crescemos no Brasil, não aprendemos a dominar o idioma português com frases prontas, listas de classes de palavras, etc. Em vez disso, fomos aprendendo os componentes mais elementares da língua e construindo ideias mais complexas a partir daí. E aprendemos isso na prática. Todos os grandes mestres, inclusive o Yoda, concordam: avançar significa olhar cada vez mais para os fundamentos. (E praticar praticar praticar!!) É na maneira como estudamos os fundamentos e no modo como praticamos que se encontra a chave para alcançar nossa meta!

As pessoas hoje em dia parecem ter essa obsessão por uma solução impessoal para todas as situações, sem que tenham que se envolver. Elas querem resolver todos os problemas com o apertar de um botão ou a aplicação de uma fórmula pronta. Se possível, querem que os problemas se resolvam sozinhos. Elas desejam essa impessoalidade. Uma coisa que aprendi ao longo da minha caminhada é que isso não existe. Queira ou não queira, a solução é pessoal!

Na música, assim como na linguagem, não existem frases prontas que funcionam em qualquer contexto. Se você não entende como funcionam e o que significam os componentes básicos das frases de uma língua, você está numa enrascada, pois não vai conseguir compreender de verdade o significado daquilo que está sendo dito — muito menos adaptar aquela forma às suas necessidades quando for preciso. No mundo real, o livro nem sempre está em cima da mesa! Por outro lado, se você conhece e entende os princípios fundamentais que compõem as estruturas mais complexas, será fácil recriá-las para que se moldem àquilo que você deseja expressar.

Todos os canais de guitarra e de música que vejo na internet parecem limitados a essa abordagem superficial da coisa. Eles nunca chegam ao fundo dessas outras questões, muito mais profundas, e que é onde devemos ir para encontrar as respostas que buscamos. Aqui estão alguns exemplos das perguntas que eu tinha mas que ninguém respondia:

  • Como ter uma técnica que nos permita executar qualquer ideia musical que tenhamos, com facilidade e sem ter de pensar? (alerta aos punheteiros de plantão: qualquer ideia humanamente possível, né)
  • Na hora de compor, como podemos manipular elementos como ritmo, melodia e harmonia para gerar efeitos específicos nos nossos ouvintes? (Ou seja, como fazer o ouvinte sentir o que queremos que ele sinta?)
  • Existe algum método conhecido para ficar inspirado deliberadamente? Se sim, qual?
  • Como pegar uma ideia musical pequena e a partir dela compor uma música completa?
  • Como fazer para tocar ao vivo, diante de diversas pessoas, com a mesma tranquilidade e o mesmo conforto que experimentamos quando praticamos em nosso quarto?

Não sei você, mas para mim essas questões sempre foram de extrema importância! Você não concorda comigo que todos nós seríamos músicos muito mais ricos se tivéssemos essas informações? Agora me diz: quantos canais brasileiros de guitarra e música que você conhece abordam esses tópicos? Eu não conheço nenhum… Todos os que eu conheço falam apenas de licks, truques e frases prontas. Eu não quero que me digam o que falar, eu não quero frases prontas! Eu quero falar aquilo que eu quiser falar na hora! Além disso, não quero aprender truques, porque truque é algo que a gente faz quando quer enganar, criar uma ilusão. Eu não quero enganar ninguém. Eu quero ser de verdade! Nessa caminhada, um elemento fundamental que aprendi com o Robert Fripp é que, para que consigamos ser de verdade — em vez de apenas parecer —, algum trabalho de introspecção é necessário. Não precisa ser muito, mas, pelo menos um pouco, precisamos olhar para nós mesmos e para o modo como fazemos as coisas, e precisamos fazer isso com sinceridade. Uma vez iniciados nesse caminho, toda uma nova dimensão se revela diante de nós. Tô falando sério, a coisa é profunda!

Meu objetivo com o Samurai Guitar é dividir com vocês as descobertas que tenho feito na minha busca por esses e outros objetivos, não apenas com os instrutores do Guitar Craft, mas também com outros materiais gringos top dos quais nem sequer se fala no Brasil. Nós vamos nos aprofundar em três áreas — guitarra, música e nós mesmos —, mergulhando até o fundo de questões de extrema importância para todos nós, e vamos fazer isso de maneira consistente e divertida.

Se tudo isso que eu falei aqui faz sentido para você, se você está em sintonia com a proposta do Samurai Guitar e está disposto a ver até onde vai a toca do coelho, você precisa fazer parte desse clã! Inscreva-se agora mesmo, será um prazer ter você ao nosso lado nessa jornada!

Um forte abraço,

Augusto