A técnica não existe

– Não tente entortar a colher, isso é impossível. Em vez disso, tente apenas perceber a verdade: a colher não existe. Aí você vai ver que não é a colher que entorta. É você.

Matrix

Quem já leu Prática Perfeita, o e-book do Samurai Guitar (que aliás você pode baixar aqui), sabe da enorme admiração que eu tenho pelos grandes pianistas, em especial por seu assombroso domínio técnico – quase sempre em perfeita harmonia com a expressividade. E é justamente um grande nome do piano (!), a incrível Maria João Pires, quem dá esta que é uma das lições mais bonitas e importantes do Samurai Guitar.

Em vez de procurar desenvolver uma técnica pronta, como um truque que funcione sempre em qualquer situação, a pianista luso-brasileira propõe um ponto de vista diferente – e muito mais maduro: pensar na técnica como o uso apropriado do próprio corpo, momento a momento (i.e., nota a nota), para trazer à vida a nossa música.

Em comparação com o que se costuma pensar (e ensinar) sobre técnica, a perspectiva de Maria João Pires é muito mais simples; só que, também, muito mais difícil. Isso porque, para realizar, de fato, essa proposta, é necessário um mergulho profundo em si mesmo, a fim de conhecermos quem e o que somos, como funcionamos e quais são as reais condições do que significa ser humano.

Essa difícil jornada de autoconhecimento, essencial para o cultivo da verdadeira maestria, sempre foi rara, mas parece tragicamente extinta em nosso tempo. Trata-se de uma virtude transmitida pelo exemplo, ou seja, que o professor primeiro incorpora em si mesmo, e depois ensina – pela pessoa que ele é, e não pelas palavras que diz. Não preciso dizer que podemos contar nos dedos o número de mestres desse gabarito que estão vivos hoje.

Para piorar, cada nova geração cresce sob uma já massiva, mas crescente, quantidade de distrações, como acesso irrestrito a smartphones e redes sociais. Acostumados com um nível de imediatismo e de superficialidade que não permite o comprometimento de longo prazo e, portanto, o desenvolvimento daquelas coisas verdadeiramente valiosas, esses indivíduos parecem fadados à frustração permanente, à depressão e à completa falta de significado em suas vidas. O genial Simon Sinek explica isso em maiores detalhes neste vídeo que você precisa assistir:

Sim, essa jornada vai demandar muito do seu tempo. Mas o tempo vai passar de qualquer maneira, e, depois que tiver passado, quem você será: a pessoa que fez aquilo que precisava ser feito ou aquela que ainda nem começou o que já devia estar pronto?

E sim, é um trabalho árduo. Ele exige que você pare de reclamar do mundo, olhe para si mesmo, humildemente reconheça suas falhas e, claro, comece a trabalhar nelas com paciência e dedicação. É só então que começamos a compreender, na prática, que não é a colher – o mundo – quem se curva, mas nós mesmos.

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