Segredos Amorosos Marcianos 2: Meditação Musical (Steve Vai)

 (Parte 2 de 7. Originalmente publicado em março de 1989, na revista Guitar Player norte-americana.)

Quando você se concentra em uma determinada situação com todo o seu coração, você obtém os melhores resultados. A chave é a capacidade da mente de se ater a um só objeto. Isso vale para qualquer busca; um pedreiro que se concentra na tarefa à mão cuida de todos os detalhes e faz o trabalho mais rápido e melhor. Ao ler um livro com sua mente completamente concentrada, sua compreensão e retenção melhoram de maneira significativa.

Eis um exemplo musical: Eu estava transcrevendo para Frank Zappa, desde solos de guitarra e bateria até arranjos orquestrados e partituras gerais.[1] O trabalho era bastante intenso, e eu chegava a passar 10  ou 12 horas por dia escutando apenas um minuto de música. Eu me concentrava com tanto afinco que ficava confuso sempre que parava por um minuto, mas alcancei resultados sem precedentes. Descobri novas formas de notação escrita, desenvolvi meu ouvido e transcrevi algumas das situações musicais mais complexas em termos de ritmo que já foram gravadas — tudo graças à mente concentrada em um só objeto.

Esse tipo de controle mental é uma meditação. As pessoas meditam todo o tempo sem perceber; assistir TV, de certo modo, é meditar. Muitas pessoas, quando ouvem a palavra “meditação”, a relacionam com o domínio espiritual. “Silenciar a mente” é provavelmente a forma mais elevada de meditação. Isto é, afastar a mente dos pensamentos incorretos e concentrar-se no Divino (ou no caminho que você esteja seguindo, seja qual for). Obtemos os melhores resultados quando meditamos sobre um assunto, mas, lamentavelmente, meditar não é fácil. A mente adora divagar, e essas intromissões afastam você dos preciosos resultados que busca.

Agora, o que raios no lindo céu de Deus isso tem a ver com aprender a tocar guitarra?

Quando você medita sobre algo, é forçado a olhar para esse objeto de muitos ângulos diferentes, inclusive alguns sobre os quais você nunca pensou. Você é forçado a acessar as profundezas da sua identidade e individualidade. Consequentemente, seus resultados serão unicamente seus. É isso que buscamos como músicos: acender a luzinha (ou fogueira) da originalidade e da individualidade.

O exercício a seguir vai ajudar você a desenvolver suas habilidades de meditação musical. Pegue uma ideia musical isolada, como um acorde único ou um riff. Por exemplo, vamos trabalhar com o vibrato. O vibrato é uma técnica muito expressiva que pode dizer mil coisas diferentes quando usado de maneira adequada (ou inadequada). Sente-se com sua guitarra e um relógio e vibre uma nota por uma hora. Parece simples, mas aqui está o pulo do gato…

Jamais deixe de segurar a nota.

Palhete-a quantas vezes quiser. Tente várias abordagens diferentes para o vibrato (rápido, devagar, comovente, melífluo, etc.).

O mais importante: não deixe sua mente vagar. Quando você se pegar pensando em qualquer coisa que não seja o vibrato (e vai acontecer, provavelmente já nos primeiros segundos), puxe sua mente de volta para a nota. Sua mente vai divagar para pensamentos como “Será que estou fazendo certo?”, e, depois, “Cara, que perda de tempo!”. Por fim, você vai se ver pensando sobre seus amigos, sua situação financeira, o que fez ontem, o que vai fazer amanhã, e, claro, “Vamos comer!”. Esta é a parte difícil. Continue puxando sua mente de volta para a vibração da nota. É uma disciplina em que vale a pena trabalhar.

No fim das contas, você vai esgotar todas as abordagens convencionais ao vibrato, todas as maneiras que já viu alguém usar a técnica. Então (se tiver disciplina para continuar), sua mente entrará em campos privados, e você vai alcançar mais profundamente em sua própria peculiaridade ideias diferentes.

Talvez você precise começar a praticar a técnica aos poucos, por apenas cinco ou dez minutos. Tente se cronometrar. Você vai, no fim, perceber que, quando chegar a hora de “tocar e pronto”, esses vibratos sairão com grande facilidade, e você vai descobrir algo diferente na sua maneira de tocar.

Você pode praticar esse exercício com qualquer riff, solo ou mudança de acorde. Mantenha sua mente no objeto e analise sua performance constantemente. Isso pode ficar muito profundo. Por exemplo, você pode escolher somente duas notas — quaisquer duas — e tocá-las por uma hora sem desviar-se delas. Tente qualquer abordagem: estenda-as, use estilos de palhetada diferentes, toque com força ou suavidade, produza notas curtas ou longas, ou vibre-as.

Uma das grandes coisas que você ganhará com esse tipo de prática é autoridade. Quando você tocar algo, terá confiança de que vai conseguir tocar o que quiser

Mas o mais importante: você ganhará disciplina. Grandes resultados exigem disciplina, e a meditação é uma disciplina. Se você gostar mesmo de praticar, não vai parecer uma disciplina, mas sim um prazer. Uma coisa é certa: A simples leitura de uma coluna nunca vai poder lhe ensinar nada. Você tem que fazer!


[1] No original, lead sheets, partituras simplificadas, compostas apenas da melodia cifrada, utilizadas para o registro das composições.

Samurai Guitar

Tradução: Mariana Valente

Revisão e notas: Augusto Roza

Link para o original: http://www.vai.com/part-two/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s