Você Precisa Praticar Isso Mais do que Escalas, Acordes, etc.

“A principal coisa que eu vejo os guitarristas fazerem é que eles tocam sem nenhum tipo de movimentação no corpo.” É com essa frase que o incrível Ross Bolton começa a compartilhar com os estudantes de guitarra aquilo que é a primeira e mais fundamental parte do processo de fazer música.

Para aqueles que já estão inscritos no clã do Samurai Guitar e leram o e-book Prática Perfeita (se você ainda não entrou para o grupo, pare de marcar bobeira e baixe o e-book aqui!), essa Dica Gringa não é exatamente uma novidade. Mas é tão importante, tão importante mesmo, que nunca é demais relembrar:

  • Primeiro, a gente para.
  • Segundo, a gente escuta.
  • Terceiro, a gente responde fisicamente à música, estabelecendo uma conexão orgânica com ela.
  • E só então a gente toca.

Isso é tão básico, tão fundamental, que é muito fácil de esquecer. Ou de ignorar.

A questão mais importante aqui é a retomada da conexão direta do corpo com a música. Com o avançar dos estudos e o desenvolvimento da compreensão teórica da nossa arte, é praticamente inevitável que os alunos (sobretudo aqueles “menos talentosos”) percam essa relação mais primitiva e direta o som. Ross Bolton, que durante muitos anos lecionou no renomado Musician’s Institute, aponta que a principal razão para o fracasso dos estudantes reside no fato de que eles estabelecem uma conexão puramente intelectual com a música.

Mas esse não é um problema exclusivo dos guitarristas que se esforçam para atingir a excelência na performance e a maestria de seu instrumento e de sua arte. Esse é, na verdade, um problema que praticamente todo ser humano adulto enfrenta. Quando somos crianças, vivemos em um estado de presença e reagimos naturalmente às nossas circunstâncias. Porém, em um certo ponto de nosso desenvolvimento, começamos a fazer uma transição, a qual ocorre de maneira tão sutil e gradual que sequer percebemos. Em geral, a partir da segunda metade da adolescência, já estamos vivendo por completo apenas em nossas cabeças: o universo inteiro foi reduzido a conceitos, símbolos, ideias e pensamentos, os quais sequestram nossa atenção e nos mantêm reféns de um show obsessivo, compulsivo e, na esmagadora maioria das vezes, delirante. Má notícia: esse espetáculo alienante não tem fim. Boa notícia: nós não somos obrigados a assisti-lo.

A chave para escaparmos da Mente do Macaco se encontra no controle da nossa atenção. Aprendemos a dizer não para a avalanche de estímulos que nossa mente, nossa sociedade e nossa cultura descarrega sobre nós. Em vez de deixar que esses estímulos nos “sequestrem” por inteiro, treinamos nossa atenção para se ancorar no momento presente e na realidade concreta que nos cerca. Isso pode ser feito através de diversos métodos. A questão é que, em vez de apenas pensar a respeito do que está acontecendo, fazemos uma imersão completa na realidade e verdadeiramente vivemos o que está acontecendo.

A Música é uma ferramenta formidável para promover esse reencontro consigo mesmo e com nossa natureza primordial. Assim como as artes marciais e muitas outras disciplinas, a Música é uma maneira tangível de lidar com o intangível. É um Caminho. Um caminho para o autodescobrimento, para o autoaperfeiçoamento e para a comunhão com os outros, com a vida e consigo mesmo. Porém, antes de desbloquear todo esse potencial e percorrer essa jornada que não tem fim, nunca é demais relembrar: primeiro a gente para.

masakatsu

Masakatsu Agatsu: A verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo.

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