Como Escolher a Música Certa para Tocar?

“Os músicos sábios são aqueles que tocam aquilo que eles podem dominar.”

— Duke Ellington


Escolher a música certa pra gente tocar é provavelmente a decisão mais importante que podemos tomar. Se escolhemos bem, avançamos em nosso caminho de vento em popa; se escolhemos mal, damos um tiro no próprio pé e, mesmo que a gente não perceba, retardamos nosso progresso. Da maneira como eu vejo a coisa, existem três critérios pra gente observar na hora de escolher uma música: gosto, capacidade e objetivo.

Gosto

É fundamental que você curta a música que vai tocar. Do contrário, será muito difícil praticá-la: vamos ficar “fugindo” da prática. Para deixar a peça redondinha e conseguir tocá-la com excelência, nós precisamos passar muito tempo com ela, praticando, aprimorando nossa execução e repetindo, repetindo, repetindo. E isso fica muito complicado se não sentimos tesão pela música que estamos tocando.

Ao mesmo tempo, isso não significa que cada peça do seu repertório precise ser uma de suas favoritas. É preciso praticar o bom-senso aqui. Dica prática: para cada uma de suas opções, dê uma nota de 0 a 10, em que 0 é uma música que você detesta e 10 é uma de suas favoritas. Só inclua no seu repertório músicas que ganharem uma nota de 6 para cima.

Capacidade

Aqui é onde a gente costuma atirar no próprio pé: damos um passo maior que a perna e nos lascamos. Capacidade, neste caso, se refere a todas as características técnicas e musicais que são necessárias para executar a música com excelência (p. ex., técnicas avançadas, frases ultra-rápidas, nuances de articulação ou interpretação que estão além do atual nível de maturidade do guitarrista, etc.). Quando escolhemos uma peça que está além da nossa capacidade, cada sessão de prática serve apenas para cultivar hábitos destrutivos, como vícios técnicos, ansiedade e tensão muscular.

Os vícios surgem pela necessidade de compensar a lacuna técnica de nossa execução, que ainda não está madura o suficiente para que a gente toque com facilidade a música que escolhemos. A ansiedade, por sua vez, entra em campo quando não sabemos se vamos conseguir ou não executar com precisão a peça. Se nos sentimos ansiosos toda vez que pegamos o instrumento para tocar, desenvolvemos um reflexo condicionado de ansiedade com relação ao ato de tocar guitarra. E isso é exatamente o oposto do que queremos: queremos que nosso corpo associe tranquilidade e confiança com o ato de praticar. (Você pode conferir mais sobre isso no nosso e-book Prática Perfeita.) Por fim, a tensão muscular surge quando não estamos conseguindo os resultados que queríamos e acreditamos que forçar um pouco mais a barra pode resolver as coisas.

A gente toca da maneira como a gente pratica. Por isso, queremos praticar com facilidade e confiança, para que a gente toque com facilidade e confiança. Daí a importância de a música escolhida estar dentro das nossas possibilidades.

Objetivo

Podemos ter vários motivos diferentes para aprender uma música. Aqui, vou falar apenas dos dois mais comuns: para o nosso crescimento pessoal e para performance. Em cada um desses casos, eu, pessoalmente, abordo a questão de uma maneira diferente.

Para o nosso crescimento guitarrístico e musical, o legal é que a música nos apresente um desafio; ou seja, para executá-la com perfeição, vamos precisar atingir um novo nível como instrumentistas. O importante, aqui, é frisar que a música deve apresentar um desafio (apenas um!). Isto é, de todas as características da peça, só existe um único aspecto que não dominamos — e é essa a habilidade que precisaremos desenvolver para tocar a música com excelência.

Além disso, é vital que o desafio apresentado pela peça seja um desafio que a gente possa superar. De nada adianta escolher uma música que nos ofereça um desafio que está além da nossa capacidade. Isso só geraria os hábitos destrutivos comentados na seção anterior. O desafio, assim como a música em si, precisa estar ao alcance de nossa capacidade.

Já quando o assunto é escolher música para uma performance, um show com a sua banda, etc., meu raciocínio é exatamente o oposto: em geral, o ideal nesse caso é que não haja desafio nenhum envolvido na execução da peça. Queremos ter a tranquilidade e a segurança de que vamos conseguir executar o repertório com excelência, mesmo sob a pressão e o nervosismo que uma apresentação ao vivo nos impõe. A última coisa que queremos no palco é a dúvida se vamos conseguir executar a peça ou não. Por isso, na hora de montar nosso setlist, escolhemos músicas que nos representem musicalmente, que vão contribuir musical e criativamente para nosso show e, claro, das quais gostamos — mas que exijam de nós apenas aquilo que nós já temos.

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