Compassos Ímpares (ou Irregulares, ou Mistos, ou Alternados, ou Complexos,…)

Poucos conceitos na teoria musical têm tantas opções de nome quanto os compassos ímpares, e poucos recursos tão simples são capazes de atribuir tanta personalidade e distinção à sua música quanto as métricas irregulares. Neste artigo, não vamos falar sobre a formação teórica dessas fórmulas de compasso. Em vez disso, vamos falar sobre uma maneira de pensar essas métricas que nos permite tocá-las com mais naturalidade e fluidez. Vamos falar sobre como groovar em 5 ou 7, etc.

Quando estamos tocando em 4/4, em geral não precisamos ficar contando cada batida para saber onde estamos no compasso e, sobretudo, onde está o tempo um. Nós simplesmente sentimos isso. O próprio pulsar do compasso, a sensação orgânica dos tempos fortes e fracos, nos permite identificar tudo isso. Mas a coisa muda quando estamos tocando em um compasso irregular, como 5/4, 7/8 ou 11/16. Nossa falta de familiaridade com essas métricas nos obriga a iniciar uma contagem mental, a qual, em geral, nos rouba toda a naturalidade e desenvoltura no tocar — e, além disso, consome o “processamento mental” que utilizaríamos para tomar outras decisões na música, como aquelas referentes a harmonia, escalas, fraseado, etc. Porém, se o problema é falta de familiaridade, então o problema pode ser superado.

Nosso objetivo é aprender a sentir essas métricas complexas, de modo que não tenhamos que ficar pensando muito para tocar e improvisar sobre elas. Se conseguirmos sentir esses compassos ímpares da mesma maneira como sentimos o 4/4, estaremos livres para tocar com naturalidade sobre todos eles. Existem várias maneiras de superar esse obstáculo, as quais vão desde sistemas de contagem mais eficientes que o numérico (p. ex., konnakol) até o simples modo como pensamos tais compassos. E é sobre este último tópico que falaremos aqui.

Para pensar as métricas irregulares com mais fluidez, o único pré-requisito de que precisamos é saber a diferença entre compasso simples e compasso composto. De modo muito resumido, compassos simples são aqueles cujas batidas apresentam subdivisão binária (tempo e contratempo), e compassos compostos são aqueles cujas batidas apresentam subdivisão ternária (como nas valsas). Outra maneira bem prática para se identificar um compasso composto é que, neste, a figura que vale um tempo será sempre pontuada. Se quiser um exemplo de compasso composto para refrescar sua memória, escute o belíssimo Noturno Op.9 No.1, em Bb menor, de Chopin, e observe o “pulsar valseado” de cada tempo:

Uma vez que tenhamos incorporado a subdivisão ternária, já temos tudo de que precisamos para tocar qualquer métrica irregular com fluidez. Todo compasso complexo consiste em um agrupamento de batidas de subdivisão binária e ternária, e, uma vez que tanto uma subdivisão quanto a outra são naturais para nós, a mistura de ambas passa despercebida pelos ouvintes menos nerds atentos. É justamente por isso que esses compassos também são chamados de compassos mistos: porque eles são uma mistura de compasso simples com compasso composto.

Assim, todo compasso de 5 será uma combinação de 2 + 3 ou de 3 + 2 (um tempo simples ou binário [2] e um tempo composto ou ternário [3]; ou vice-versa).

Todo compasso de 7 será 2 + 2 + 3; ou 2 + 3 + 2; ou 3 + 2 +2.

A única coisa que temos que fazer é decidir como vamos “organizar” esses elementos ternários e binários dentro do compasso, e isso dependerá exclusivamente do frase ou groove que tocaremos. Claro que, quanto maior o numerador da fórmula de compasso (o “número de cima”), maior será o número de possibilidades que teremos à nossa disposição. Um compasso de 11, por exemplo, pode ser preenchido através deste sistema como quatro tempos binários e um ternário ou como um tempo binário e três ternários, e cada uma dessas opções pode ser organizada de diversas formas.

Os compassos irregulares, quando organizados dessa forma, nos proporcionam uma sonoridade muito peculiar, com um suingue e um groove muito próprios. Pensando neles assim, fica fácil misturar compassos de 5, 7, etc. em meio à nossa música, sem dar “na cara” que estamos tocando compassos “quebrados”. Uma música que é uma verdadeira aula dessa mistura toda, aplicada ao rock e temperada com muito bom gosto, é Driven, da banda canadense Rush. Escute essa música e procure analisar as diferentes métricas que são apresentadas ao longo da peça. Observe a discrição e a genialidade com que esses mestres transitam entre compassos simples, compostos e irregulares, e note como a mudança de uma métrica para outra altera a percepção de movimento do ouvinte, apensar de o andamento se manter constante. Aplique o que você descobrir nessa análise em uma composição sua.

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