Dinâmicas de Intensidade na Guitarra

Nós temos basicamente dois tipos de reação quando assistimos outro guitarrista tocar: ou achamos que o cara toca muito, ou o achamos chato pra caramba. No primeiro caso, o guitarrista foi capaz de prender nossa atenção, ou seja, sua performance manteve nosso interesse (para dizer o mínimo). Porém, se achamos o cara chato, é porque sua performance foi monótona. Ele não incluiu contrastes suficientes em sua música. Em música, chamamos esses contrastes de dinâmicas.

A música é a arte do movimento; é o próprio movimento transformado em obra de arte. Ou seja, a música é uma arte de dinâmicas. A guitarra elétrica, que em muitos aspectos está se afastando perigosamente da música, está consequentemente se afastando também das dinâmicas, sobretudo no que se refere aos dois tipos de dinâmicas mais importantes na nossa arte: as dinâmicas de intensidade e as de andamento. Neste artigo, vamos falar sobre o primeiro tipo e ensinar dois exercícios que vão nos ajudar muito a incorporar as dinâmicas de intensidade na nossa execução. Por que isso é importante? Porque dinâmica é expressão.

As dinâmicas de intensidade, como o nome sugere, se referem à intensidade com que tocamos as notas — de modo suave (piano) ou vigoroso (forte) — e à maneira como transitamos de uma intensidade para outra. Quando escutamos um guitarrista que explora esses contrastes (p. ex., Jeff Beck, Mateus Asato, John Meyer e Derek Trucks, só para citar alguns), automaticamente o reconhecemos como um bom instrumentista e músico. O controle sobre as dinâmicas denota um controle avançado sobre o instrumento: o cara já não está mais pensando apenas nas notas que vai tocar, mas também em como ele vai tocá-las. Controlar as dinâmicas significa musicalidade, maturidade e domínio do instrumento. Significa expressividade, e é isso que nos impressiona tanto quando ouvimos os guitarristas citados — os quais, claro, possuem muitos outros méritos além do controle das dinâmicas.

A primeira coisa que precisamos fazer para incorporar isso na nossa técnica é descobrir a gama de dinâmicas que temos sob nosso controle. Para isso, basta ficar palhetando uma corda solta na guitarra e ver com quanta suavidade e com quanto vigor conseguimos fazer isso sem perder o controle do instrumento. Esses seriam os nossos atuais extremos de dinâmica, nosso molto pianíssimo (ppp) e nosso molto fortíssimo (fff).

Pensando na nossa gama de dinâmica como um potenciômetro, nosso ppp seria o 1, e nosso fff seria o 10. De posse dessa informação, podemos criar uma escala de graduação de nossas dinâmicas de intensidade, uma régua que vai do 1 ao 10. Agora, um segundo passo importante em nosso estudo seria aprender a ir gradualmente de um número dessa escala para outro. Em música, essas transições se chamam crescendo (cresc.) e decrescendo ou diminuendo (dim.). Na música erudita você encontrará os melhores exemplos do poder expressivo desse recurso. Escute, por exemplo, o apocalíptico 2º Movimento da 7ª Sinfonia de Beethoven, observando as indicações de dinâmica na pauta. A peça começa em pianíssimo (pp) e atinge seu primeiro clímax em fortíssimo (ff) (aos 2min 10seg).

Um segundo exercício é começar a aplicar naquilo que normalmente tocamos tudo o que descobrimos no exercício anterior. Podemos aplicar dinâmicas em escalas, arpejos, etc. e, sobretudo, evidentemente, nas músicas que tocamos. Como estudo, uma boa ideia é aplicar variações de dinâmica em tudo, até mesmo naquelas músicas que originalmente não apresentam dinâmica alguma. Uma sugestão minha seria exagerar muito nesse estudo: toque com tanta suavidade que as notas fiquem praticamente inaudíveis, e tão forte que as cordas quase arrebentem! Transite entre esses extremos, e observe os pontos da frase ou da música que pedem uma dinâmica mais forte, quais pedem mais suavidade, onde começar a aumentar e a diminuir a intensidade, etc.

Observe também a diferença entre uma frase tocada com muita dinâmica e essa mesma frase tocada sem dinâmica alguma. Note a mudança drástica na expressividade. Se você gravar essa comparação em áudio, em poucos minutos ficará clara a diferença que os contrastes de dinâmica fazem para o ouvinte: música sem dinâmica é como uma pessoa que fala tudo sempre num mesmo tom de voz — zzzzzzzzzzzz.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s