Afinações Alternativas: Dois Motivos Para Você Usá-las

No último post aqui do Samurai Guitar eu toquei a música Hope, de A. Dehonestis e J.P. Sinks. Uma das muitas características interessantes dessa peça é que ela usa uma das afinações de violão e de guitarra que eu mais gosto: a NST, ou Dó pentatônica (do grave para o agudo: CGDAEG). Afinações alternativas são uma ótima saída para a gente abandonar o automatismo na guitarra e também para escapar das sonoridades mais manjadas no nosso instrumento.

Neste post não vamos falar da NST especificamente, e sim de quaisquer outras afinações de guitarra que não sejam a afinação padrão: todas elas vão funcionar para você obter os benefícios mencionados aqui, e você pode escolher aquela que mais lhe agrada.

Muitas vezes, nós nos vemos reféns de licks que tocamos até mesmo sem querer. Chamamos isso de “automatismo” ou “mecanicidade”. O automatismo é tudo aquilo que fazemos de modo automático, inconsciente, não intencional. É aquilo que o hábito treinou nosso corpo para “fazer sozinho”, independentemente da nossa vontade — como dar a descarga depois de mijar ou apagar a luz ao sair do banheiro. Se você já se pegou realizando qualquer uma dessas ações quando, por qualquer motivo, não deveria fazê-lo (p.ex., algum encanamento estragado ou alguém tomando banho), então você sabe o que é o automatismo. E o automatismo é o EXATO OPOSTO da criatividade.

Na guitarra, esse problema geralmente aparece na forma de licks que nossos dedos dão um jeito de encaixar em qualquer coisa que estejamos a tocar. Guitarristicamente, é como se fôssemos um personagem d’A Praça É Nossa ou da Escolinha do Prof. Raimundo, com seus bordões que serão invariavelmente usados, não importa em qual situação a gente se encontre. Uma vez que o lick está baseado na afinação que estamos acostumados a usar, substituí-la por uma afinação alternativa nos libera dessa prisão criada pelo hábito inconsciente: as notas mudaram de lugar no braço, e agora precisamos encontrá-las deliberadamente para poder tocá-las.

Além disso, goste você de blues ou não, é muito difícil escapar dessa sonoridade na guitarra elétrica. Pela própria disposição dos dedos na escala do instrumento, o blues acaba sendo uma opção natural para nós no nosso menu de sonoridades. Mas o blues está todo nas quartas justas que compõem a afinação padrão. Remova isso, e novos sabores estarão disponíveis no cardápio musical da guitarra.

A maior evolução guitarrística que aconteceu nas últimas duas décadas se deu no mundo do violão elétrico. Muito disso, claro, se deve a questões técnicas do violão percussivo moderno. Mas a sonoridade diferenciada permaneceria com seu frescor mesmo que excluíssemos a percussão simultânea e os tappings de Michael Hedges e seus filhotes: suas harmonias e melodias não são aquelas sonoridades manjadas do mundo da afinação padrão. Todos esses músicos invariavelmente exploram afinações alternativas e, com isso, sonoridades e composições diferenciadas. O próprio Jimmy Page, responsável por uma evolução guitarrística anterior, também foi encontrar longe da afinação padrão a criatividade para compor a vastíssima gama de sonoridades que construiu com o Led Zeppelin.

É claro que isso não significa que você deva abandonar totalmente a afinação padrão e adotar de maneira integral uma alternativa. Pense nisso como falar um segundo idioma: você continua falando sua língua nativa e interagindo normalmente com as pessoas ao seu redor, mas tem ainda mais opções se domina também o inglês, espanhol, etc. As afinações alternativas são comprovadamente uma boa ferramenta para a gente explorar melhor a nossa criatividade e se abrir para opções novas, coisas que a gente nunca tocou e músicas que nunca antes pensamos em fazer. Não perdemos nada, mas adquirimos muito em diversas áreas diferentes de nossa vida. Vale a pena experimentar — como uma viagem de intercâmbio ao exterior.

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