Modos Gregos – Do Modo Certo [3]

No primeiro artigo desta série, vimos uma maneira diferenciada de treinar cada um dos modos gregos. No segundo, olhamos para uma nova de organizá-los e de treinar todos eles. Nesta terceira parte do nosso estudo, vamos ver uma prática que é especialmente útil para desenvolver a capacidade de trocar de um modo grego para outro de maneira natural e fluida. Este material é uma continuação do que vimos nos artigos anteriores, então seria importante ter acompanhado as partes 1 e 2 para tirar o máximo proveito deste texto aqui.

A troca de escalas é uma das maiores dificuldades com que os guitarristas se deparam quando mergulham nesse mundo dos modos gregos. Como já disse mais de uma vez aqui no Samurai Guitar, a maneira como essas escalas costumam ser ensinadas leva os estudantes a entender que os modos são os shapes. Assim, é comum que a ideia de trocar a escala seja associada à necessidade de “trocar de shape”: se a música está em Dó jônio, o cara fica no primeiro shape clássico do modo (oitava posição); quando a música muda para, por exemplo, Sol jônio, o cara desloca esse mesmo shape para a terceira posição.

O maior prejuízo causado por essa limitação é que o raciocínio do guitarrista tem que ser abortado e recomeçado a cada troca de escala, quando o desejado seria que o fraseado fluísse continuamente através das mudanças.

A melhor solução que já encontrei para esse problema é justamente treinar essa mudança de escala sem interromper o rumo da frase. Em termos práticos, fazemos o seguinte:

1- Pegamos os modos da maneira como os organizamos no artigo anterior (por espaçamento).

2- Em vez de tocar a escala de tônica a tônica e só então trocar para o próximo modo, estabelecemos de antemão um determinado número de batidas ou compassos para cada escala. Claro, procure estabelecer esse número de maneira que o final do ciclo não coincida sempre com a tônica da escala (se não vamos estar fazendo o exercício do artigo anterior!)

3- A princípio, subimos e descemos a escala pelo período que determinamos, fazendo a mudança de escala onde quer quer estejamos. Quando fazemos a troca, mantemos o sentido da frase: se estávamos subindo, continuamos subindo após a mudança; se estávamos descendo, continuamos descendo.

No exemplo seguinte, optamos por trabalhar com os shapes inteiros (3 notas por corda) a partir de Dó lídio, e a troca acontece a cada compasso. Observe na partitura que o sentido da frase não muda com a troca de escala:

exercicio-de-troca

Assim que pegar confiança nessa “troca no meio do caminho”, sugiro que você siga fazendo o mesmo exercício, mas abandone a ideia de subir e descer as escalas e, em vez disso, comece a improvisar frases musicais. Aqui, são duas as ideias principais: 1) identificar o caráter das frases de cada um dos modos; 2) trazer esse conhecimento para dentro das nossas mãos.

Se você curte frases mais sofisticadas e complexas, uma boa prática seria elaborar uma frase longa, em que as trocas de escala acontecessem no meio da frase. Por exemplo, uma frase de quatro compassos, trocando de modo a cada compasso — ou seja, a frase conteria em si quatro modos diferentes. No começo, você pode praticar este exercício seguindo a ordem dos modos como vimos nesta série (do lídio ao lócrio, etc.). Depois, conforme for adquirindo controle sobre o “clima” de cada modo, você pode manipular à vontade essas trocas de escala dentro da frase, de acordo com aquilo que quer expressar. Artisticamente, o resultado disso é que, em vez de serem apenas felizes, apenas tristes, etc., suas frases terão uma carga emocional mais complexa, porque terão dentro de si diversos sentimentos, expressados (de maneira fluida!) pelos vários modos que elas contêm.

A ideia de todas as práticas sugeridas aqui é sempre começar de maneira mais estruturada, mais “com cara” de exercício mesmo, pra gente não se perder e conseguir assimilar bem a técnica que estamos estudando. Mas ficar nisso para sempre acabaria transformando uma ferramenta em uma prisão para nós mesmos. Então, conforme vamos avançando e adquirindo confiança na assimilação desses conceitos, vamos soltando as amarras do exercício e aproximando ele cada vez mais da música de verdade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s