Palhetada II -O Segredo por Trás do Movimento Eficiente

O primeiro artigo desta série começa com uma citação do Einstein, o que é realmente apropriado porque estamos aplicando o método científico no nosso estudo da palhetada, como explicamos no post anterior. Quando decompomos o mecanismo da palhetada nas suas partes constituintes, encontramos três componentes básicos. Um deles é estático: a maneira de segurar a palheta, que cobrimos no artigo anterior. Os outros dois são, de fato, os movimentos que a gente vai usar para palhetar.

Olhando bem de perto para essa questão, vamos descobrir que existem basicamente só dois tipos de movimento na técnica da palhetada.

1) O movimento de ferir/tocar a corda, ou seja, o ato de fazer a palheta atravessar a corda para que ela soe;

2) A troca de corda, ou seja, o movimento de levar a palheta de uma corda para outra.

Esses dois movimentos são tudo o que temos na palhetada. Eu sei que, falando assim, isso parece muito óbvio (e de certa forma é), mas é incrível como os guitarristas esquecem disso na hora de estudar. Estou frisando isso aqui para não cometermos o erro de esquecer dessa obviedade nem por um instante sequer. Neste artigo aqui, vamos olhar para esse primeiro movimento: a maneira da técnica ortodoxa de como palhetar uma corda.

Um bom exemplo de como estudar isso, são os bateristas (odeio admitir, mas nisso esses barulhentos da p**** estão certos!). Os bateristas podem não ser músicos (muahaha), mas eles sabem como estudar técnica. No instrumento deles existe algo chamado técnica de Moeller, que é basicamente a técnica ortodoxa aplicada à bateria.

Um baterista, quando vai estudar técnica de mão, começa observando a maneira de segurar a baqueta (exatamente como nós, que começamos olhando como segurar a palheta). Os bateristas sabem que isso é fundamental: se não estiver segurando a baqueta do modo mais eficiente, a técnica vai ser prejudicada. Então, eles pegam uma única peça da bateria (em geral a caixa) e passam a estudar o movimento de tocá-la, ou seja, como vão dar o golpe. (Veja o vídeo do grande Jojo Meyer demonstrando isso no fim deste artigo.)

Pra gente que não toca bateria isso faz todo o sentido, porque, no fim das contas, a técnica do instrumento deles é essa: ficar batendo coisas. Só que a gente esquece de aplicar essa obviedade no estudo do nosso caso. O que a gente faz como guitarristas? (Pelo menos com relação à palhetada) A gente palheta cordas. Exatamente do mesmo jeito como um baterista faz com um tambor ou prato.

Existe um princípio da técnica de Moeller que a gente vai aplicar diretamente no nosso instrumento, porque é um fundamento da técnica ortodoxa, que utilizamos aqui no Samurai Guitar: a gente não faz o movimento, a gente deixa o movimento acontecer. Fazer o movimento e deixá-lo acontecer são duas coisas completamente diferentes. Eu sei que isso é meio zen (o que, aliás, tem tudo a ver com samurai…), mas essa é realmente a melhor maneira de descrever a coisa. E essa é a maneira mais eficiente de palhetar. Assim como o baterista não vai fazer o movimento, mas soltar o peso do braço, deixar o braço cair e, durante a queda, permitir que a baqueta toque no tambor ou prato, nós vamos aplicar o mesmo princípio na guitarra: não vamos exercer um esforço com a mão para fazer a palhetada; em vez disso, vamos simplesmente soltar a mão e deixar que a palheta atravesse a corda durante essa queda. 

É meio difícil de explicar isso em palavras, é uma experiência que você tem que sentir na própria pele. Uma referência para dar uma ideia de como é a experiência dentro da mão de fazer o movimento da palhetada desse “jeito zen” é quando você vai lavar as mãos e não tem toalha, então você solta as mãos e as sacode para a água escorrer. A sensação física que você tem que experimentar dentro do seu braço e do seu punho é bem parecida com essa, só que muito mais controlada, claro.

Além da ausência de esforço, é importante perceber de onde parte o movimento da palhetada: ele deve vir do punho. Você simplesmente solta o punho e deixa que a gravidade o puxe para baixo. Quando você consegue fazer isso o movimento fica muito pequeno e muito preciso. Sem esforço nenhum, você consegue ficar tocando desse jeito por muito tempo sem precisar interromper a sua prática, já que nenhum esforço está sendo realizado. Palhetando desse jeito, não existe a possibilidade de tendinite, lesão por esforço repetitivo e todas essas porcarias que afligem a maioria dos músicos que não conhecem os princípios fundamentais da técnica eficiente.

Então, para a palhetada para baixo vamos soltar a mão, deixar a gravidade puxar o punho e deixar a palheta raspar na corda durante essa queda. Na palhetada para cima, aplicaremos o mesmo conceito zen: também não vamos fazer um movimento de palhetada. Em vez disso, vamos apenas retornar a mão para a posição original, e assim como na palhetada para baixo, vamos deixar a palheta raspar na corda durante o percurso.

Portanto, não vamos pensar em dois movimentos, uma palhetada para baixo e uma para cima. Pensamos em um único movimento, que seria a palhetada para baixo, com a ressalva de que esse é um movimento que a gente não faz, apenas deixamos acontecer; a palhetada para cima, na verdade, não existe (sim, estou sendo zen mais uma vez…). Dizemos que ela não existe porque a gente nunca faz a palhetada para cima, a gente simplesmente volta a mão pra posição inicial e deixa a palheta raspar na corda durante o caminho. A palhetada para cima deve ser pensada como um rebote da palhetada para baixo, e não como um movimento individual.

Com isso, a sua técnica vai dar um salto de eficiência porque aí você tem duas notas com um único movimento, e ainda é um movimento que você não fez, é um movimento que você só deixou acontecer. É muito mais eficiente porque não estamos fazendo dois movimentos para ter duas notas, mas deixando um movimento acontecer e obtendo duas notas. Posteriormente, com o princípio do chunking (do qual podemos falar em outra oportunidade), a gente vai pensar em um movimento e ter quatro, oito, dezesseis notas —até uma música inteira.

Você tem que levar consigo duas ideias principais deste artigo: 1) não fazer o movimento, mas deixar ele acontecer e 2) a palhetada para cima é só um rebote da palhetada para baixo.

A melhor maneira de treinar esses dois princípios para incorporá-los na sua técnica é pegar uma única corda e buscar palhetá-la desse jeito, assim como os bateristas pegariam uma única peça da bateria e praticariam apenas nela. Você também, deve, evidentemente, praticar esse exercício em todas as cordas, mas sempre com o foco nesses dois princípios: soltar a mão para palhetar para baixo e pensar na palhetada para cima como um rebote. Trabalhe de fato a qualidade desses movimentos. Não fique palhetando de qualquer jeito. Concentre-se nisso. Note que tudo isso está muito mais na sua mente do que nos seus músculos. É uma questão de perspectiva, de como encaramos o ato de palhetar. E olhar para as coisas de uma maneira diferente daquela com a qual estamos acostumados pode ser muito difícil — mas também pode ser a melhor coisa para você.

No próximo artigo vamos encerrar essa primeira abordagem dos fundamentos da técnica da palhetada: vamos observar a troca de cordas.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s