Palhetada I – O Método Científico

Não há maior sinal de loucura do que fazer uma coisa repetidamente e esperar a cada vez um resultado diferente — Einstein

Não adianta, se você é um estudante sério de guitarra, mais cedo ou mais tarde terá de enfrentar o grande vilão da técnica guitarrística: a palhetada alternada.

Agora veja se você se identifica com esta cena: o cara está começando a tocar guitarra, ou já toca há algum tempo (tipo uns cinco anos), e escolhe um solo ou uma frase de um mestre da palhetada, como um Paul Gilbert da vida. O lick ou solo apresenta alguns elementos muito complexos; tem uma mecânica e uma técnica extremamente intricadas, muito sofisticadas. É preciso ser um exímio guitarrista pra conseguir executá-lo com precisão. E como o cara vai praticar e estudar isso? Em geral, da maneira mais burra possível: na força bruta. O resultado de todo esse esforço, claro, é uma porcaria. Então o que o cara faz? Continua praticando exatamente da mesma forma.

O que o cara do nosso exemplo não percebe é que o que o impede de executar o tal solo ou lick não é a frase ou o solo em si mesmos: o problema é um fundamento técnico que ele não domina. Sem esse fundamento técnico, ele pode repetir o lick ou solo para sempre, que não vai dar em nada. Com sorte, o máximo que essa repetição vai gerar, no fim das contas, é a capacidade de executar aquele lick ou solo específico. Como a maioria de nós não é tão sortuda assim, o que sobra pra gente é, em geral, uma técnica cheia de vícios, decorrente da prática indevida.

Nós aqui no Samurai Guitar vamos trabalhar com outra lógica, com outro mindset, que é o oposto da repetição despropositada. A gente vai trabalhar com os fundamentos técnicos. Se dominar o fundamento técnico por trás desse solo, ou seja, a maneira de trabalhar que permite a execução precisa, você vai conseguir executar qualquer solo ou frase que tenha esse fundamento técnico como um de seus componentes. Essa estratégia pode demorar mais para dar frutos e exigir mais investimento inicialmente, mas é a que dará maior lucro no longo prazo. E samurais não têm pressa: trocamos algumas liberdades menores para conquistar uma liberdade muito maior.

A coisa mais difícil que existe na guitarra é a palhetada. Esse é um mecanismo muito complexo, muito sofisticado, e, por isso, não adianta você pegar uma frase ou solo e ficar repetindo de qualquer jeito durante um tempão, esperando que de repente, por milagre, tudo flua e tudo aconteça como deveria. Isso simplesmente não vai acontecer. Esse mecanismo tem incontáveis nuances e detalhes. A chance de você dominá-lo por pura sorte e inspiração divina é praticamente nula. Se você não olhar para as coisas certas, não vai dar certo.

Quando estamos diante de uma máquina complexa como a da palhetada, a melhor maneira de abordar o problema é usar o método científico. Ou seja, vamos desmontar a engrenagem toda parte por parte e vamos olhar para cada um dos seus componentes, a fim de entender como cada um deles funciona e qual sua relação com o resto da máquina. Aplicando o método científico para o mecanismo da palhetada, vemos que ele é formado por três componentes:

1) a maneira de segurar a palheta

2) o ato de palhetar a corda (ou seja, transmitir movimento para a corda)

3) a troca de cordas (a ato de ir de uma corda para outra)

Não existe nada na palhetada além desses três elementos. Tudo o que se pode falar sobre esse assunto é alguma versão de um desses três componentes. Nós vamos dedicar um artigo (e um vídeo) para cada um deles. Neste aqui, portanto, vamos falar sobre como segurar a palheta da maneira mais eficiente possível.

A maneira da técnica ortodoxa de segurar a palheta é muito simples. Tudo o que você precisa fazer é soltar e relaxar completamente a mão e os dedos, virar a palma para cima (com os dedos e a mão completamente soltos), e você já estará praticamente na posição certa. Depois disso, é só pressionar levemente o polegar contra a lateral da última falange do dedo indicador e posicionar a palheta ali no meio. Existem apenas duas coisas importantes para observar: o polegar da nossa mão tem três juntas (a primeira”dentro” da palma da mão, a segunda bem no começo do dedo e a terceira no meio do dedo, que é a mais próxima da unha). Nessa maneira de segurar a palheta, nós vamos dobrar apenas a segunda dessas juntas, e a terceira junta deve estar “gentilmente travada” (isto é, travada, mas sem fazer força para isso). A segunda coisa é usar os dedos médio, anelar e mínimo para dar suporte ao indicador — tudo isso de uma maneira bem relaxada e bem solta. Nós não forçamos o polegar e os dedos uns contra os outros. Em vez disso, usamos a própria anatomia e a maneira como os ossos da mão naturalmente se encontram para que, relaxando a mão, ela tranque a palheta na posição correta. Falando assim parece muito mais complexo do que realmente é. 

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O polegar com a última junta “gentilmente travada”. Dobramos apenas a segunda junta. Os dedos médio, anelar e indicador dão suporte ao indicador.

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Visão superior. Note o espaço entre o polegar e o resto da mão.

Segurando a palheta desse modo, você está com a musculatura da mão o mais relaxada possível, o que significa que vai poder movimentá-la com o maior grau de liberdade, sem nenhum risco de lesionar algo. Além disso, não há nenhuma força tentando segurar a palheta.

A presença de qualquer tensão ou força maior que o mínimo necessário prejudicaria a técnica. Os músculos funcionam de maneira simpática. No nosso caso, importa especialmente algo chamado tensão simpática. Basicamente, isso significa que, quando um músculo se contrai, todos os músculos ao redor dele se contraem também. O problema disso para a técnica é que isso é cumulativo, um efeito bola de neve: os músculos ao redor dos músculos ao redor também vão se contrair, e aí os músculos ao redor dos músculos ao redor dos músculos ao redor…. bem, você pegou a ideia. Segurando a palheta da maneira ortodoxa, tudo está completamente relaxado, não há nenhum músculo contraído em excesso, e você está livre para fazer todo o movimento de palhetada com a maior liberdade do mundo.

UM ALERTA MUITO IMPORTANTE

É muito fácil subestimar a importância desse conteúdo. É muito fácil achar que isso não faz a menor diferença, que tanto faz a maneira como você segura a palheta, que dá no mesmo, que isso é pessoal ou que não tem influência na técnica da palhetada. É bem comum a galera pensar isso, mas esse é um erro grave que você não deve cometer. Se aplicar um método científico no mecanismo da palhetada, você vai ver que o modo de segurar a palheta é um componente absolutamente crucial da nossa técnica. Todo o mecanismo e a movimentação da palhetada passam pela palheta para chegar na corda. A palheta é a única coisa entre você e a guitarra. A palheta é a única coisa que vai transferir todo o movimento, toda a sua técnica de palhetada para a corda. Se esse elo da corrente não estiver firme, todo o trabalho do resto do corpo, toda a movimentação e todo o treino serão jogados no lixo, porque aquele componente que entregaria todo esse trabalho ao destino final não consegue cumprir seu dever.

Portanto, o contato com a palheta é de fundamental importância. Eu me arrisco a dizer que essa é a relação mais importante que você tem na guitarra. A mão da escala toca direto nas cordas. A mão da palheta, não. Você deve prestar muita atenção à maneira como segura a palheta e à qualidade do seu contato com ela. Se estiver errando muito em frases de palhetada alternada, é muito provável que o problema esteja nesse contato, porque esse componente da técnica da palhetada é subestimado muito facilmente e com muita frequência.

Os três componentes do mecanismo da palhetada são igualmente importantes. Se você matar esse fundamento muito simples e básico, já eliminou 1/3 das chances de erro e só precisa observar outros dois mecanismos, que veremos nos próximos artigos.

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