Suíte No.1 e a Técnica Ortodoxa

No vídeo a seguir eu toco o primeiro movimento da Suite No.1, de Robert Fripp, e falo um pouco sobre a ideia de técnica ortodoxa na guitarra elétrica, a técnica que utilizamos para tocar essa peça. Minha ideia inicial era não incluir nenhuma performance minha no Samurai Guitar. Não queria envolver meu ego nessa história. No entanto, trata-se de um projeto de música, e algumas pessoas haviam pedido para me ver tocando. Justo, pensei. Mas como manter a impessoalidade na abordagem de ensino (impessoalidade no sentido de não impor minhas preferências e estilos pessoais) e, ao mesmo tempo, atender à solicitação? Resposta: indo para um terreno neutro, como a música erudita ou folclórica. A Suíte No. 1 não é nem uma coisa nem outra — mas que engana, engana. Além disso, ela serve como uma deixa perfeita para dar introdução ao meu assunto preferido.

A suíte escolhida é toda em semicolcheia, ou seja, quatro notas por pulso, e é executada inteiramente com palhetada alternada, o que acaba fazendo dela um bom exercício (e um grande desafio!) para essa técnica. Ao tocar músicas com essas características, precisamos ter o máximo de eficiência em nossos movimentos. Cada milímetro desperdiçado conta, afinal são quase dois minutos tocando cerca de dez notas por segundo. Se quisermos desenvolver uma técnica que nos proporcione os movimentos mais eficientes, obtendo o máximo de resultado com o mínimo de esforço necessário, um grande auxílio que temos a nosso favor é a técnica ortodoxa, que aplica à guitarra elétrica os princípios universais da eficiência e da ergonomia — princípios esses que foram reunidos, testados e aprovados ao longo de séculos pelos maiores e mais dedicados mestres da nossa e de outras artes.

Na técnica ortodoxa, não há espaço para relativismos: existe sim certo e errado; você não está livre para fazer as coisas “como achar melhor”. Isso parece ser um problema para a maioria dos jovens nos dias de hoje, que acabam tomando isso como um cerceamento de sua liberdade. O que esses jovens não percebem é que, nesse caso, abrimos mão de muitas liberdades menores em nome de uma liberdade muito maior. Muitos homens, muito melhores, mais talentosos e mais dedicados que nós já viveram e se debruçaram sobre o assunto técnica, e tiveram a generosidade de deixar registradas todas as suas descobertas antes de baterem as botas. Abrir mão dessa tradição, de todo esse legado de conhecimento, é, para dizer o mínimo, burrice. Não precisamos redescobrir a roda.

A grande ajuda da tradição é que esses muitos homens muito melhores etc. já testaram para nós, ao longo dos séculos, tudo o que funciona e o que não funciona no longo prazo. Isso é um enorme auxílio: evita que incorporemos à nossa maneira de tocar soluções apenas meramente temporárias, que resolvem nossos problemas imediatos, mas, ao mesmo tempo, como efeito colateral, viciam nossa técnica — nos privando de resolver problemas futuros, mais complexos, que surgirão caso venhamos a evoluir (o que pretendemos fazer).

Por que não aceitar esse auxílio? Por que não aproveitar esse recurso? Os músicos eruditos já estão carecas de saber disso tudo — e não vemos nenhum virtuose do piano reclamando disso por aí… —, mas parece que, no mundo da guitarra elétrica, a informação sobre a existência desse universo ainda não chegou. Mas os dias de desinformação estão contados: Samurai Guitar nasceu justamente para abordar esse assunto.

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