Como Treinar o Feeling na Guitarra Solo

Tenho certeza que você concorda comigo quando digo que música é uma linguagem. Eu sempre achei que fazer uma analogia entre a linguagem musical e a linguagem verbal nos ajuda muitoa compreender bem e aprimorar vários aspectos da música em si e de nossa execução na guitarra em particular.

Na linguagem falada, você já deve ter observado, consciente ou inconscientemente, que não importa apenas o que dizemos, mas também como dizemos. Assim como podemos falar uma mesma frase de diversas formas, expressando diferentes significados, do mesmo modo podemos tocar uma frase musical de muitas maneiras diferentes — e igualmente transmitir aos nossos ouvintes mensagens distintas. Como fazemos isso em música? Do mesmo modo como fazemos na linguagem falada: com dinâmicas e articulações.

Articulações são maneiras diferentes de “pronunciar” as notas, as quais seriam as “palavras” no nosso discurso musical. Na guitarra, temos muitos recursos de articulações de notas, ou maneiras de conectá-las, sendo as mais comuns os ligados, os slides e os bends. É nossa obrigação saber explorar todos esses recursos expressivos, de modo que sejamos capazes de tirar o máximo de expressividade do nosso instrumento.

No mundo da guitarra, foca-se muito nas notas que serão tocadas (escalas, arpejos, etc.) e nas técnicas individuais. Como vocês pode ler em meia dúzia de lugares neste site, eu tenho como princípio pessoal, artístico e pedagógico não dizer a vocês quais notas tocar — muito menos impor-lhes minhas preferências nesse sentido. Vocês são os artistas, os criadores de suas obras, e somente os senhores mesmos podem saber e decidir o que querem dizer com suas composições. Além disso, quando estamos diante de um material didático, quase sempre o que vemos é a prática voltada para uma técnica específica. Isso é muito importante se quisermos aprimorar essa tal técnica, mas também é muito importante ter sempre em mente que, no mundo real, num discurso musical verdadeiro, essas técnicas não vão aparecer sozinhas, mas todas misturadas, temperando o nosso discurso conforme a necessidade e nossas intenções. É justamente a capacidade de honrar as necessidades do momento e transmitir nossas intenções que nos torna pessoas — e guitarristas — expressivos. Tocar com feeling, ou com sentimento, nada mais é do que conseguir comunicar (transmitir, expressar) isso.

O que proponho como exercício aqui é pegar essa gama de opções e aplicá-la toda dentro de uma mesma frase, de preferência uma que seja bem curta e melódica (três a cinco notas) e experimentar com essas diferentes articulações, substituindo uma por outra, e, então, observar as diferenças que daí decorrem. Preste atenção em como cada uma delas muda a pronúncia das notas escolhidas dentro da frase. Um outro exercício que nos ajuda muito a evoluir nessa área é esforçar-se para descrever o efeito causado por cada uma das articulações que conhecemos. Se você fosse descrever o efeito expressivo, o sentimento que cada uma dessas articulações produz, como descreveria? Como descreveria a diferença sonora entre um slide e um bend, por exemplo? Eles são exatamente a mesma coisa? Se não, qual a diferença entre um e outro? Em qual situação você usaria um ou outro? Existe algo que o slide consegue expressar e que o bend não consegue (e vice-versa)? O que?

Vale muito a pena a gente se perguntar esse tipo de coisa, para que tenhamos realmente o controle consciente dessas articulações e possamos usar isso conscientemente na hora de compor nossas músicas. Assim, quando quisermos expressar determinada ideia ou sentimento, saberemos quais recursos nos ajudarão a conseguir fazer isso com mais sucesso, independentemente de “a inspiração bater” ou não.

Claro que a resposta para essas questões é pessoal. Cada um, de acordo com sua vivência, vai encontrar determinadas características em cada uma dessas articulações. Isso é muito legal, porque significa que, se temos uma visão única de cada um desses recursos, então vamos utilizá-los de maneira igualmente única. É como se fosse um segredo nosso, da nossa música e da nossa maneira de compor, mas também um segredo exclusivo de cada ouvinte: sabemos o que tínhamos em mente na hora que compomos aquilo, e, ao mesmo tempo, cada pessoa que escutar nossa música vai ter uma interpretação igualmente própria e única do que estávamos pensando quando decidimos quais notas falaríamos então e como elas deveriam ser pronunciadas. A pessoalidade dessas questões também tem outra implicação: significa que apenas você pode respondê-las para si mesmo e que, se você não se fizer as perguntas e procurar as respostas por conta própria, ninguém jamais o fará por você.

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