Três erros que tornam os guitarristas antimusicais

A guitarra é um instrumento super popular, e um dos mais expressivos e cheios de recursos que existem: vai do som acústico ao timbre tratado com um bilhão de efeitos, tem uma enorme gama dinâmica e apresenta a possibilidade de polifonia até seis notas. Ou seja, nós temos tudo para ser os instrumentistas mais musicais do planeta.

No entanto, basta uma comparação rápida com a galera que toca outros instrumentos (inclusive aqueles que são bem mais simples que o nosso) pra perceber que a realidade não é essa. Em algum lugar no meio do caminho (talvez em algum lugar dos anos 80 ou 90?), a coisa degringolou. E aparentemente isso aconteceu de modo tão gradual que sequer percebemos o que estávamos nos tornando: alguns dos instrumentistas mais chatos e antimusicais do universo (só não ficamos com o primeiro lugar definitivo nesse pódio porque graças a Deus [ou ao outro…] existem os bateristas!).

Esse fenômeno sempre me chamou atenção, e ao longo da minha caminhada descobri pelo menos três causas para esse problema, as quais estão intimamente interligadas:

1- Dependência de shapes. Os diagramas de escalas/arpejos, que eram para ser uma ferramenta de apoio, se tornaram uma prisão! Não é nada difícil para nós limitar a nossa música a um desenho do qual, infelizmente, passamos a ser reféns. Em vez de a gente dominar as escalas e as manipular de acordo com nossos objetivos artísticos, é bem comum vermos o shape dizendo para o guitarrista o que ele deve tocar. E isso é péssimo. Essa dependência reflete um mal tão comum quanto destrutivo do nosso tempo: a preguiça mental. Nós fazemos uma arte que é auditiva. Nossos ouvidos, e não nossos olhos, deveriam guiar nossas mãos. Mas o pessoal não faz mais música. Eles apenas tocam guitarra.

2- Dependência da visão. A maioria dos guitarristas hoje em dia precisa ver as notas para poder tocar elas. Esse problema está diretamente ligado ao anterior: se o cara precisa ver as notas, é porque ele depende de um shape para se movimentar no instrumento. Mas essa dependência pelo menos tem uma solução fácil: é só a gente impedir nossos olhos de enxergar enquanto tocamos, como, por exemplo, tocando vendados ou no breu total. O importante aqui é que, mesmo olhando para o braço da guitarra, a gente não consiga ver onde estão as notas e nossos dedos. Nessa situação, os vemos obrigados a ouvir e a sentir o que tocamos. Essa prática tem grande poder transformativo.

3- Pensar em técnica em vez de pensar em música. No desespero por impressionar os outros e arrancar deles alguma validação que amenize sua carência e falta de autoconfiança (ou apenas por burrice mesmo…), o cara deixa de focar na música que quer fazer e na ideia artística que quer expressar. Ele pensa simplesmente: agora tapping! agora sweep! agora palhetada alternada! E, creio eu, faz tudo isso para que, com sorte, seus malabarismos impressionem aos demais. De repente, num dia excepcional, o cara pode até encontrar um sentido para sua própria vida: ele consegue tocar algo que outros não conseguem. Palmas para esse idiota — não porque mereça, mas porque realmente precisa de um pouco de atenção.

Pensar em técnica em vez de pensar em música arranca o sujeito imediatamente do reino da arte para largá-lo no inferno das opções mais óbvias e manjadas dos últimos trinta anos. Além disso, necessariamente leva o guitarrista a recair nos dois primeiros erros.

Como se soluciona isso? Bem, o ideal seria não pensar em técnica nunca. A gente deveria pensar apenas na música, e deixar que a técnica mais adequada para sua execução se manifeste. E esse é um nível de performance muito difícil de se atingir. É o nível dos grandes mestres, que ja transcenderam a técnica.

Eu ainda não atingi esse nível, mas pretendo atingi-lo um dia. E o Samurai Guitar foi criado justamente para permitir a reunião dos guitarristas que têm esse objetivo, uma comunidade na qual a gente possa compartilhar uns com os outros as nossas descobertas ao longo dessa jornada rumo à verdadeira maestria do instrumento. Você é um desses samurais? Então junte-se a nós aqui.

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  1. Pingback: 5 Erros que Todo Guitarrista Comete | Samurai Guitar

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