O mais importante sobre vibratos

Todo grande guitarrista tem um vibrato único e próprio. Já os iniciantes têm todos o mesmo. Sempre. Independentemente do que a música exija, eles insistem em fazer um vibrato descontrolado, em geral frenético. De tão rápido, soa como um cantor sertanejo de quinta categoria com transtorno de ansiedade que tenta fingir manjar dos paranauês, quando, na verdade, está tendo um ataque de pânico. Sim, é horrível.

Em uma grande quantidade de guitarristas, não só iniciantes, o vibrato é mais um vício mecânico do que um recurso verdadeiramente expressivo. É como se alguém lhes tivesse dito que devem fazer essa coisa quando seguram uma nota, e, obedientes, eles seguem essa orientação sem entender bem o porquê, apenas por obrigação profissional. O vibrato é tipo o imposto de renda desses caras.

E quem sofre esse pênalti é a música. O vibrato é um recurso expressivo. É ele que dá o contorno, a ênfase e o caráter para as notas. Assim, nesse caso, nada poderia ser mais grave que essa mentalidade de “one size fits all”. Cada vibrato precisa ser controlado deliberadamente, com vistas ao efeito que desejamos expressar para cada nota e frase específicas.

Eu sei que, falando desse jeito, pode parecer que estudar esse assunto vai nos dar um trabalho hercúleo. Mas a verdade é que o vibrato é um recurso super simples, em que só temos dois parâmetros a controlar: sua frequência, ou seja, o quão rapidamente oscilamos a nota; e sua intensidade, ou seja, o quanto oscilamos a tal nota.

A intensidade do efeito é em grande parte influenciada pelo tipo de vibrato que usamos.

Existem três os tipos de vibrato na guitarra:

1- Vertical, o mais popular de todos, que consiste basicamente em uma série consecutiva de “mini-bends” controlados, em geral de até meio tom, mas podendo ir até um tom — e quem sabe além. Este tipo pode ser feito também com a alavanca.

2- Horizontal, muito utilizado na música erudita. É um vibrato discreto e equilibrado, que não altera a altura da nota. No contexto da guitarra elétrica, é adequado para contextos musicais mais delicados, frases suaves ou qualquer situação em que um vibrato mais intenso seria de mau gosto.

3- Circular. Este vibrato ficou famoso pelas mãos de Steve Vai e, basicamente, é uma mistura dos dois tipos anteriores. Pela própria natureza de sua execução, é um vibrato mais lento, e, pelo mesmo motivo, não funciona bem na primeira e última corda do instrumento.

Já a frequência do efeito pode ser trabalhada com o auxílio do metrônomo. Escolhemos um andamento confortável e oscilamos uma nota em diferentes subdivisões, por exemplo colcheias, tercinas, semicolcheias, etc.

Via de regra, um vibrato mais lento cai melhor que um mais rápido, mesmo que a música em questão tenha andamento acelerado e sonoridade agressiva. Daí o mal-estar gerado pelos vibratos dos iniciantes, que costumam ser excessivamente rápido. Uma prática bem útil nesse caso e que sempre recomendo a meus alunos com pouco tempo de guitarra é experimentar com vibratos mais lentos do que aqueles que estão acostumados a fazer, e gravar tudo para depois comparar os dois tipos. Gravar as nossas sessões de prática, como falamos no e-book Prática Perfeita, é de grande auxílio, porque com frequência a impressão que temos quando estamos tocando é bem diferente daquela que temos quando nos ouvimos numa gravação. Experimente fazer esse exercício e depois me conte o que você achou.

Outro ponto importante de se observar com relação ao vibrato é a musculatura utilizada para sua realização. Os músculos dos dedos são muito frágeis e se cansam com pouquíssimo esforço. Por isso, ao contrário do que faz a maioria dos iniciantes, o ideal é que façamos os vibratos usando músculos maiores, como os do punho e do antebraço. Isso nos dá muito mais controle. Além disso, impede que a gente caia naquela terrível situação de total falta de resposta da musculatura dos dedos, decorrente de pura e simples exaustão, por excesso de carga — nesse caso, devido a sua utilização exclusiva para fazer os vibratos. Se tocar guitarra fosse levantamento de pesos, no aparelho “vibrato com os dedos” bastam duas ou três músicas para que a gente chegue à falha.

Os dedos tocam as cordas, mas não é deles que parte o movimento que realiza os vibratos. Os dedos funcionam apenas como “mensageiros”. Eles apenas transmitem às cordas as oscilações que têm origem na articulação do punho e, em casos extremos, do cotovelo. Nós já ouvimos várias vezes a expressão “fazer amor com a guitarra” sendo usada para ilustrar o nível ideal de envolvimento que o guitarrista deve ter com o instrumento. Mas é preciso frisar também que vibrato não é siririca. Aliás, note que numa siririca bem batida você também vai utilizar movimentos maiores do punho — e, novamente, em casos mais extremos, do cotovelo. Isso não pode ser apenas uma coincidência.

Trabalhe na obtenção do controle de seus vibratos, observando os pontos levantados neste texto (intensidade, frequência, tipo e musculatura empregada), e deixe pra bater as siriricas no camarim com as gurias que você vai comer após fazer uma performance verdadeiramente expressiva. Pode agradecer ao Samurai Guitar depois.

Um pensamento sobre “O mais importante sobre vibratos

  1. Pingback: Show do Steve Vai e o que Eu Aprendi Nele | Samurai Guitar

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