Como eliminar a diferença entre tocar de pé e tocar sentado

“Uma boa posição e uma boa postura refletem um estado mental apropriado.

-Morihei Ueshiba

Uma das coisas que mais afetam nossa performance na guitarra e da qual pouco se fala é a posição do instrumento. No mundo das artes marciais,  a postura (“posição” ou “base”) é um dos fundamentos mais cobrados e um dos primeiros a ser ensinado, tamanha sua importância. Na música erudita, a coisa não é diferente, e por isso obras didáticas importantes, como o excelente livro Escola de violão, do não menos excelente Abel Carlevaro, já abordam o tópico do posicionamento do instrumento logo de saída. Mas é claro que, no mundo da guitarra elétrica, ainda alheio à existência da técnica ortodoxa, a resposta a essa questão ainda é velho e displicente “faça como achar melhor” (que de pouco adianta para quem, por ter levantado tal dúvida, evidentemente não sabe ainda o que seria o melhor…).

Quase todos os guitarristas praticam com o instrumento solto sobre a perna direita (caso toquem como destro). A vantagem dessa posição é que a guitarra fica bem “firme”, presa entre o peito e a coxa do músico. As desvantagens são, primeiro, o comprometimento da postura corporal que esse posicionamento exige, uma vez que o guitarrista precisa se curvar sobre o instrumento, o que inviabiliza práticas mais longas. Segundo (e mais importante), a enorme distância dessa posição com relação àquela que adotamos quando tocamos de pé. Aí é aquela coisa: quando praticamos sentados, somos um Guthrie Govan; quando tocamos de pé, somos tipo um Gustavo Lima chapado.

Isso é muito prejudicial para a nossa performance, porque praticamos de um jeito e, na hora do show ou do ensaio com a banda, a situação é outra, bem diferente — e todas as horas de treino vão pelo ralo. Além disso, existem outras complicações técnicas/ergonômicas decorrentes dessa postura ruim, como o acesso a todas as cordas e casas do braço, que não é igual, e a subsequente necessidade de compensar essa dificuldade com movimentos do corpo que não seriam necessários se tivéssemos posicionado a guitarra da melhor maneira possível considerando-se a anatomia humana, como ensina a técnica ortodoxa.

Quando fiz meu primeiro Guitar Craft, em 2011, alguém (creio que o argentino Ignacio Gracián, que dirigiu esse curso) me deu uma dica que sanou de vez o empasse: regular a correia para a altura certa e simplesmente deixá-la no instrumento. Então, basta lembrar-se de, todas as práticas, pendurar a guitarra na correia, em vez de apoiá-la apenas sobre as pernas. Desse modo, a posição do instrumento com relação ao nosso corpo não muda, independentemente de a gente estar tocando de pé ou sentado. E as implicações disso na nossa performance são ótimas, porque na hora do show (em que normalmente tocamos de pé), o posicionamento da guitarra é o mesmo de nossas práticas. Isso diminui a diferença entre treino e performance — e quanto menor for essa diferença, melhor.

Ótimo! Problema resolvido! Bem, quase. Ainda falta um detalhe: definir qual é o posicionamento correto do instrumento. Essa posição deve ser a mais ergonômica possível, de modo que nossa técnica possa atingir o máximo de eficiência. Se você quiser investigar essa questão em maiores detalhes, eu realmente recomendo a leitura do já referido Escola de violão, do Abel Carlevaro, e então adapte o conteúdo para a realidade da guitarra elétrica. (Se tiver dificuldade em encontrar essa obra, entre em contato comigo pelo email contato@samuraiguitar.com.br que eu ficarei feliz em te ajudar.)

Neste post, vou dar três referências para você observar e ajustar sua correia:

1 – O cotovelo da mão que segura a palheta deve estar flexionado a mais ou menos 90 graus.

2 – Dobrando apenas o cotovelo da mão da escala, você deve cair na sétima posição (ou seja, dedo indicador na casa sete).

3 – O headstock da guitarra deve estar mais ou menos na altura do seu olhar.

Esse posicionamento do instrumento é o que nos permite a maior eficiência técnica. É por isso que vemos muitos guitarristas darem um jeito de colocar a guitarra nessa posição na hora de executar algum trecho difícil.

De cima para baixo, da esquerda para a direita: John Petrucci (Dream Theater), Guthrie Govan (The Aristocrats) e Nuno Bettencourt (Extreme) dando um jeitinho de colocar a guitarra na posição ensinada pela técnica ortodoxa para conseguirem executar com perfeição passagens de grande dificuldade técnica. Note o ângulo de aproximadamente 90 graus nos cotovelos da mão da palheta e o headstock das guitarras na altura dos olhos.

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