Técnica, punheta e comunicação (e seus mitos)

“Técnica é a habilidade de traduzir em som suas ideias através do  seu instrumento.”

— Bill Evans

 

Logo depois que surgiu a ideia do Samurai Guitar, perguntei a diversos amigos que tocavam guitarra ou outro instrumento sobre quais assuntos eu poderia abordar aqui. O tópico vencedor foi, de longe, técnica. No mundo da guitarra, podemos dizer que a técnica é uma verdadeira obsessão. Basta olhar os infinitos canais e sites dedicados à guitarra para confirmar isso: o tema técnica está por todo lado!

Isso é bom, certo? Hmmm… não necessariamente.

Em função do papel central que a técnica desempenha para que a gente consiga atingir um nível de alta performance, era de se imaginar que esse assunto já tivesse sido investigado à exaustão e que todas as respostas definitivas a respeito de técnica já tivessem sido obtidas. Porém, é isso o que vemos? Não. O tema “técnica” ainda constitui uma das principais dificuldades dos estudantes de guitarra. Além disso, ainda é um tópico cercado de dúvidas e, infelizmente, de informações enganadoras e mitos. Se, por um lado, basta pensar em técnica para que mil páginas e vídeos saltem na nossa frente, por outro é muito difícil encontrar informação consistente nesse mundo de digitalidades e de resultados miraculosos em tempo recorde.

Faz todo sentido que a técnica ocupe esse papel central na vida do guitarrista e, na verdade, de todo e qualquer instrumentista. Por quê? Porque é preciso alguma técnica para que consigamos tocar qualquer coisa. Sim. Não importa o quão anti-fritação você seja nem o quanto defenda que ter feeling é mais importante (no que, aliás, concordo com você), o fato é que a técnica é imprescindível para que possamos fazer música. Sim, ao contrário do que algum shredder fritador megapunheteiro supersayajyn de rápidas mãos (¬¬) possa ter dito nessa internet de Deus, técnica — ou, melhor ainda, boa técnica — não significa tocar o maior número de notas o mais rápido possível até gozar que o mundo exploda (depois de nossas cabeças [sem trocadilho]).

Então, afinal de contas, o que é técnica?

Esse assunto é muito vasto e pode ser abordado de diversas perspectivas diferentes. A ideia do Samurai Guitar é justamente abordar esse tema pelo maior número de ângulos possível. Assim, a definição de técnica pode variar um pouco conforme o aspecto dela que desejamos enfocar. Neste primeiro momento, de uma maneira abrangente, podemos definir técnica como a capacidade de se expressar musicalmente. Seria como a habilidade de conseguir dizer aquilo que se quer dizer.

Já ouvi alguns guitarristas ensinarem que técnica seria a habilidade física de tocar as notas. Essa definição não está de todo errada, mas é incompleta. Se nós somos uma unidade mente-corpo (e nós de fato somos), então seria mais exato dizer que a técnica engloba todos os meios físicos e mentais pelos quais o indivíduo expressa suas percepções musicais.

Dessa última definição a gente pode tirar duas conclusões importantes: primeiro, que existe uma relação de dependência entre nossa técnica e nossa percepção. Isso faz sentido, afinal não conseguimos tocar aquilo que não conseguimos ouvir. (Por isso aquele estranhamento do tipo “Tem certeza que são essas as notas??” quando você se depara pela primeira vez com a transcrição do solo de um Kiko Loureiro ou Petrucci…) Segundo, que técnica não é um fim em si mesma, mas apenas um meio para um fim muito maior. Assim, é absurdo tentar adquirir técnica dissociada de seu propósito: expressar música!

Como disse antes, é muito comum ouvirmos por aí a ideia de que a técnica está apenas nos músculos, mais especificamente nos dedos. Os YouTubes da vida estão repletos de instrutores mostrando exercícios para fortalecer a musculatura dos dedos. Pura balela! Esse é um dos muitos mitos que permeiam o mundo da guitarra e, especificamente, da técnica. Eu sei que, numa primeira olhada, isso parece fazer sentido. Mas pare e pense junto comigo. Quanto pesa uma corda de guitarra? De quanta força você precisa para fazer a corda encostar no traste? (Traste é o sujeito que ensina essas coisas, isso sim!)

Uma corda de guitarra não pesa quase nada, e não é preciso praticamente nenhuma força para empurrá-la os dois ou três milímetros necessários pra que ela encoste na casa! Pelamordedeus, se você precisa fazer uma musculação toda especial pra conseguir isso, vá correndo ao médico mais próximo e comece urgentemente a tomar uma proteína e um Biotônico Fontoura, e não se esqueça de comer seus vegetais! De boa, essa ideia de que precisamos fortalecer a musculatura das mãos pra tocar é apenas mais um mito difundido por aí por esses instrutores imaturos que querem suas mãos fortes para tocar outra coisa… É a versão guitarrística do mito dos pelos na mão — e, em pleno século XXI, ainda tem punheteiro guitarrista que acredita na lenda.

Além disso, se você parar pra pensar, essa instrução está em franca contradição com outra, muito mais sólida: tocar o mais relaxado possível, realizando apenas o mínimo esforço necessário. Se a ideia é tocar com o mínimo de força necessário, por que nós precisaríamos fortalecer as mãos? Não sei vocês, mas as minhas sempre foram fortes o suficiente para realizar o mínimo esforço necessário… (deixa quieto)

A verdade é que técnica é muito mais uma questão mental do que dos dedos. Pense comigo: em última instância, técnica é coordenação, e a coordenação não está nos dedos. É o cérebro quem comanda o envio e a distribuição dos estímulos para que a contração muscular ocorra. Ou seja, é a mente que coordena os músculos! Isso significa que, para adquirir a distinção muscular necessária para tocar, precisamos ter a percepção (mental) da ação dos músculos. É isso que nos permite comandar as partes do corpo em seu trabalho para que executem com precisão nossa intenção musical.

Por favor, lutemos por um universo guitarrístico com menos masturbação e mais sexo de verdade.

 

Um pensamento sobre “Técnica, punheta e comunicação (e seus mitos)

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