O Uso de Si Mesmo

“As pessoas não decidem seu futuro: elas decidem seus hábitos, e os hábitos decidem seu futuro.”

– F. M. Alexander

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F.M. Alexander era um ator e declamava poesias, até que, inexplicavelmente, passou a perder a voz, muitas vezes no meio das apresentações. Após ir a diversos médicos que jamais encontraram uma explicação — muito menos a solução — para sua condição, ele decidiu investigar e resolver seu caso ele mesmo. Depois de muito estudo, o que Alexander descobriu é que havia uma “maneira” como ele usava seu próprio corpo, e que estava presente em todas as atividades que realizava. Ele chamou isso de “uso habitual de si mesmo”, ou seja, o modo default como cada indivíduo usa o próprio corpo. No seu próprio caso, Alexander observou que o simples desejo de declamar era o bastante para fazer esse uso entrar em ação. O problema, para o ator, é que esse uso habitual o estava fazendo perder a voz e o impedia de falar. Mesmo ciente disso, bastava a mais rápida ideia de falar passar pela sua cabeça que seu corpo reagia pondo em ação tal mecanismo.

Dessas observações, F.M. Alexander extraiu duas conclusões muito importantes. Primeiro, que o uso errado de si mesmo, por ser habitual, dava a sensação de estar certo. Ele viu que qualquer maneira nova de fazer alguma coisa iria transmitir sensações diferentes daquelas com as quais a pessoa estava acostumada — e, se a maneira antiga parecia certa, então a nova necessariamente irá parecer errada. A segunda conclusão de Alexander foi algo que os povos antigos sempre souberam: que aquilo que a gente conhece por “mental” e “físico” não são coisas separadas. Não só é impossível traçar, na prática, uma linha divisória entre esses dois domínios, como também parece impossível impedir que um influencie o outro.

Como guitarristas e como seres humanos, podemos nos beneficiar muito das descobertas de F.M. Alexander, pois, independentemente de qual seja a nossa atividade profissional, no fim das contas o nosso próprio corpo é o instrumento através do qual vamos realizar nosso trabalho. Independentemente do que você queira fazer — tocar guitarra, caminhar ou correr, fazer sexo, etc. —, é através do seu próprio corpo que você fará isso. Ou seja, se não controlamos a nós mesmos, quaisquer tentativas que a gente faça de controlar outras coisas é “cega” e aleatória, uma verdadeira loteria da descoordenação motora.

Algumas atividades exigem um controle do próprio corpo relativamente pequeno para que consigamos realizá-las. São atividades mais “grosseiras”, como, por exemplo, caminhar, sentar, levantar, assistir TV, etc. Outras tarefas, mais sutis — como pintar uma obra de arte ou tocar guitarra com excelência —, exigem um controle muito mais fino do próprio corpo. Isso significa que, mesmo que nossa “técnica de caminhar” esteja longe do ideal, nós em geral vamos conseguir realizar essa ação quando quisermos (a menos que fatores alheios à nossa vontade nos impeçam). Já quando decidimos tocar guitarra como o Guthrie Govan ou o Jeff Beck, nossas tentativas tendem a ser persistentemente muito mais frustrantes. Isso ocorre porque o mais mínimo desvio da técnica ideal já implicará resultados desastrosos. Assim, fica clara a importância estratégica de ter como prioridade esse aprendizado do uso do próprio corpo em relação ao aprendizado de qualquer outra habilidade.

É por isso que um dos principais tópicos do Samurai Guitar é “como fazer”, em vez de “o que fazer”. As propostas que vamos apresentar aqui podem ser totalmente novas para muitos. Isso por si só já é um grande desafio. Mas não é o único. Para dificultar um pouco mais as coisas, todo o conteúdo disponibilizado na web é “não presencial”. Ou seja, você terá de experimentar as sugestões aqui contidas sem a presença de um instrutor com o qual possa discutir, experimentar e confirmar sua compreensão e aplicação dos conteúdos oferecidos. Isso nos leva a duas questões muito importantes.

A autoinstrução, ou seja, o ato de aprender algo sozinho, é algo bastante complicado e difícil por si só. Sem a ajuda de um instrutor e valendo-se apenas da leitura de manuais, a grande maioria das pessoas não conseguiria adquirir satisfatoriamente habilidades como dirigir um carro, nadar, jogar golfe… ou tocar guitarra. Para agravar ainda mais a situação, muito do conteúdo disponibilizado no Samurai Guitar propõe que você opere segundo um princípio novo — melhor, mas, ainda assim, novo. Isso significa que, durante esse processo, você inevitavelmente deverá entrar em contato com experiências inéditas, desconhecidas, e que, portanto, como previu Alexander, darão a sensação de parecer estar erradas num primeiro momento (por não serem habituais, causarão estranheza). Assim, para que obtenha sucesso em incorporar no seu modo de tocar as ideias aqui propostas, você precisará abrir mão daquela “sensação do que parece certo” que orienta seu modo de tocar habitual. Vale a pena repetir mais uma vez: se o antigo parecia certo, o novo necessariamente irá parecer errado.

Abrir mão é, de fato, o mais difícil e fundamental passo que precisamos dar para iniciar uma nova jornada. Se quisermos substituir um hábito antigo por outro novo, antes de cultivar o novo precisamos deixar para trás o antigo; e quando tentamos fazer isso, nos deparamos com a impressionante (mas não invencível!) força dos hábitos. Dos hábitos prejudiciais, o mais comum hoje em dia é o de reagir depressa demais a um estímulo. Como F.M. Alexander descobriu, o predomínio dessa condição pode ser considerado o principal responsável pela maioria dos erros de entendimento, julgamento e conduta no uso do próprio corpo. Em outras palavras, seu primeiro e principal objetivo ao trilhar o caminho aqui proposto é aprender a não fazer, ou, melhor ainda, a deixar de fazer.

O homem é uma unidade perfeitamente integrada. Para fins didáticos, podemos separar componentes de uma estrutura que sejam indivisíveis na prática. Assim, podemos separar abstratamente, por exemplo, mente e corpo, de modo que possamos nos deter com exclusividade nas características da primeira ou do segundo. Só que essa divisão é impossível na prática. Corpo e mente formam uma unidade, são uma coisa só. E é próprio da unidade que uma mudança em uma das partes implique uma mudança no todo.

 

P.S.: Se você tiver a oportunidade, não deixe de fazer umas lições de Técnica Alexander e experimentá-la na prática. Sem dúvida alguma o conhecimento desses instrutores vai contribuir em muito para o seu avanço, não só como instrumentista, mas em todas as áreas da sua vida! Você não vai se arrepender! Como “amostra grátis”, assista este vídeo bem interessante e instrutivo da prof. Eleni Vosniadou, que nasceu na Grécia e, atualmente, mora em São Paulo. No vídeo, ela compartilha algumas ideias sobre o impacto da postura no estudo do violão que valem a pena conferir!

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